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quarta-feira, julho 27, 2016

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Nesta casa envelheceremos. E veremos as nossas sombras chegar a um apeadeiro, esse onde habitam os vizinhos. Casais que chegaram a este bloco já há vinte anos com os filhos da idade dos nossos, tu e eu éramos então uns desconhecidos. Amávamo-nos e depois voltávamos ao fogo materno, brasas que hoje esperam a nossa chamada.

Nesta casa envelheceremos. Digo-to eu, quando ainda não sofremos o sinal do desencanto. Sobrevivemos, já ganhámos alguns pulsos à morte. E agora abraçamo-nos inseguros mas ainda esfomeados. As paredes ainda respiram um ar provisório. Ainda há espaços possíveis, espelhos escondidos, regiões desconhecidas. Na casa, no armário, no teu corpo. A vida ainda não é ainda algo irreversível.

Nesta casa envelheceremos. E os veremos sair altos e redondos para as cerimónias. E os veremos chegar derrotados e lhes diremos que nada é para sempre. E a sua alegria será a nossa, multiplicada. E também a dor. Não sei se então seremos felizes. Não sei se existe ser feliz , desconheço essa fórmula matemática. Mas sei que vou querer voltar a esta casa quando aumentar a tempestade. Sei que aqui, ao abrigo desta casa, estarei a salvo. Junto a ti, salvo.




Pablo García Casado
FARÓIS ACESOS À PROCURA DO OCEANO
de Pablo García Casado

tradução Maria Sousa
Editora Do Lado Esquerdo







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