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quarta-feira, maio 25, 2016

Uma vez mais
a casa despida.
Lentas fotografias, moles molduras,
álbuns blindados, o pó de tudo,

o silêncio prevalecente
da despedida.
Uma casa mais
eu deixo.

Por vezes parece que
sou eu quem fica
e ela que me deixa.



Daniel Jonas



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quarta-feira, maio 18, 2016

Sim, as unhas. Único órgão humano
que merece ser cantado no poema,
ele mesmo uma espécie de unha, laminar.
Garras ou pétalas,
precisam de corte e medida certa,
insistindo, depois do fim
da carne (que guarneceram toda uma vida),
em crescer para nada.
Últimas, mínimas transparências
fibrosas e amareladas
— pelos muitos cigarros. E
ainda se riem da morte,
já no caixão, sinal
de força sob a irremediável fraqueza humana.
Espigões quebradiços
com que ferimos o chumbo,
esse coração que Conrad disse um dia ser de trevas.



Luís Filipe Parrado



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terça-feira, maio 17, 2016

Permanência


Quis-me como a nada no mundo.
Como a nada, penso: nada.
E procuro entre o nada. Que é o nada?
um compromisso? uma sede? algo?



Concha García




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domingo, maio 15, 2016

sábado, maio 14, 2016

tradução caseira da lebre

FICAR EM CASA


Ficar em casa,
mergulhada nas dobras das horas
e não esperar ninguém.

Que os olhos ouçam
e se esqueçam do mundo.

Que me vista o silêncio
e respire na minha nuca
a sua suave indiferença.

Que viver seja isto,
sem palavras de agulha
nem joelhos de choro,

com o tempo despido à beira da cama
e a minha boca dormindo no seu tímido beijo.


Ana Merino


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quinta-feira, maio 12, 2016

Hei-de entrar nas casas
também
como o luar

A ver as faltas de roupa interior
e de cama

os rostos preocupados
com os avisos da luz e da água

com a máquina de petróleo apagada
jornais nas paredes
e um pássaro na varanda
a cantar
ao lado duma flor



António Reis



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quarta-feira, maio 11, 2016

Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.



Ana Paula Inácio



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