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terça-feira, janeiro 12, 2016

There's a starman waiting in the sky

sexta-feira, janeiro 08, 2016


Coisas que fazem o coração bater mais depressa


Pardais a alimentar as suas crias. Passar por um lugar onde brincam bebés. Dormir num quarto onde se queimou incenso delicado. Reparar que o nosso elegante espelho chinês está a ficar baço. Ver um cavalheiro parar a sua carruagem em frente ao nosso portão e mandar os seus criados anunciar a sua visita. Lavar o cabelo, preparar-nos e vestir roupas perfumadas. Ainda que ninguém nos veja, sentimos um íntimo prazer. É de noite e esperamos uma visita. De repente somos surpreendidos pelo som das gotas da chuva que o vento atira contra as persianas. 


Sei Shonagon
( versão maria sousa)



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terça-feira, dezembro 29, 2015

A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo

Ana Merino



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terça-feira, novembro 10, 2015

tradução “caseira” da lebre



Sou o único actor.
É difícil para uma mulher
interpretar uma peça inteira.
A peça é a minha vida,
o meu acto único.
O meu correr atrás das mãos
e nunca as apanhar
(as mãos não se vêem -
ou seja, estão nos bastidores)
Tudo o que faço em cena é correr,
correr para acompanhar
mas sem o conseguir.

De repente paro de correr.
(isto avança um bocado com o enredo)
Faço discursos, centenas,
todos orações, todos solilóquios.
Digo coisas absurdas como:
ovos não podem discutir com pedras,
ou, mantenham os vossos braços partidos dentro das mangas,
ou, estou aqui de pé mas a minha sombra está torta.
E tal e tal.
Muitos buhs. Muitos buhs.

Apesar disso eu continuo para as ultimas deixas:
Estar sem Deus é ser uma cobra
que quer engolir um elefante.
A cortina cai.
A assistência apressa-se a sair
foi uma má interpretação.
Porque sou o único actor
e há poucos humanos cujas vidas
farão uma peça interessante,
não concordam?


Anne Sexton



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quinta-feira, outubro 15, 2015

terça-feira, outubro 13, 2015



Mudamos esta noite

E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões

onde levar as plantas

e como disfarçar os móveis velhos

Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam

e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem

Vai descendo tu

Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias


António Reis



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domingo, outubro 04, 2015

 Vêm aí dias difíceis
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefecem ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.


Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.


Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!


Vêm aí dias difíceis.


Ingeborg Bachmann





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