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Quinta-feira, Junho 20, 2013

A solidão é feita de regressos:

Levamos a vida a afastar da morte quem amamos. Mas somos quase sempre derrotados, porque os gestos que afastam já estão carregados de morte.

O que há em mim que não quer? Todos os meus caminhos não quiseram. Nem desvios foram. De um momento para o outro, chega-se. Ao lugar onde cada passo tem a decisão de uma queda. Escorpiões vão de duna em duna. Por um engano.

Hoje, não consigo recompor o teu rosto, e, se nitidamente te imagino, não és bem tu mas uma qualquer fotografia tua. Hoje, a tua fotografia apropriou-se de ti: deve ser assim que se começa a morrer. Quando à nossa volta um corpo desaparece nos sinais da sua passagem.



Rui Nunes





 photo litabosch5.jpg

Sexta-feira, Junho 14, 2013

podemos cantar um canção os dois
a valsa da matilde do waits
a voz do vinagre onde o álcool se transforma em
som

algures no nosso oeste
cactos e bagaço
o blue valentine na kentucky avenue

uma lágrima numa longa
noite sem fim
porque esperamos?
não sei
juro que não sei
sentada na berma
ja tenho doses de noites a
mais
de esquinas e portas
de adeus em adeus
elas não suportam a separação
não choram mais porque secaram
i never talk to strangers

o som da cidade
fica restabelecido e já não tenho horas
o relógio parou
e eu fiz um gesto obsceno
e desapareci



maria sousa



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Quinta-feira, Junho 06, 2013


Mais uma manhã sem cor
uma manhã inexausta cheia
como um marmelo,
como a romã de Deus,
uma manhã com cheiro a fetos
e a cavalgadas nos bosques,
mas não haverá nem fetos
nem cavalos irrompendo na luz,
esta doce manhã
trará no rosto a marca
das minhas decadências...





Alda Merini



 photo AinoKannisto2-1.jpg