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domingo, outubro 14, 2018

A propósito de grandes épocas, vem-me à lembrança uma frase, que aliás o senhor conhece:

a história dá lições, mas não tem alunos.

Ingeborg Bachmann

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sexta-feira, outubro 12, 2018

Os vestidos de verão ficaram
pendurados no roupeiro, decotes
abertos aos vincos da imobilidade.
Um turquesa longo, um vermelho
vivo fora de moda, no obscuro
interior, na intimidade das
costuras, o recorte ousado
das axilas, a pele
de um corpo ausente.

Inês Lourenço



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segunda-feira, julho 02, 2018

Convite


Tenta-me com uma visão de colinas
relva que é verde
pavões tão vulgares como pardais.
Podemos ler no pátio, diz ela,
ouvindo o picapau às voltas com a sua árvore,
admirar as rosas, colher fruta, contar estrelas.
Traga a tia, os cães, o periquito, diz,
escreva um ou dois poemas felizes.
De vez em quando, continua,
iremos até à aldeia
para sabermos como é que o mundo
não vai.




Eunice de Souza
(tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho)


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terça-feira, maio 08, 2018

Por vezes não sabemos o que fazer
por vezes não sabemos o que fazer
— hoje apenas resta esta frase
a sinalizar em ferida uma falha
— sem esperança dela irradiar
cornucópia luminosa braseiro
ficamos imobilizados no mundo
sem contorno ou profundidade
sem mão ou palavra para erguer
alguma coisa se afasta de nós
irremediavelmente.




Carlos Alberto Machado



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sexta-feira, abril 13, 2018

São precisos pelo menos dois
Para que a solidão se instale.

Nisso, a solidão é como um filho.



André Tecedeiro



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quinta-feira, março 15, 2018

Estava capaz de rasgar o jornal de domingo aos bocadinhos
e tentar não ligar aos anúncios.

Estava capaz de acabar de cavar o buraco
que estive a abrir no quintal.

Estava capaz de fazer chá e tomar vitamina C.
Apetece-te uma chávena de chá?

Estava capaz de dar muito simplesmente um passeio,
Sem destino nenhum.

Estava capaz de ficar muito sossegadinho a um canto, parando de inventar motivos
para andar de um lado para outro.

Estava capaz de ter uma conversa contigo.
Apetece-te uma conversa?



Sam Shepard



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quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Advertências e conselhos do Doutor Van Helsing
contra a espécie predadora dos espelhos



Ninguém sabe quem fabrica estes vampiros em série.
De dia roubam-nos os olhares e os gestos.
De noite, escondem-nos o dia e não pedem resgate.
O tempo não passa por eles: eles são o Tempo.
Quando os teus espelhos tiverem fome dá-lhes de comer
o que te sobrar: uma ruga, uma olheira, um cansaço.
Nunca irão ficar saciados; vira-os contra a parede.
Às vezes, quando ninguém os vê, sofrem pesadas digestões
e então devolvem um bocado mais dos que engoliram.
De nada serve partir o seu reflexo: vão se multiplicar se os dividires.
A única maneira de matar um espelho é colocá-lo em frente a outro.
Ninguém sabe porquê, mas - ao reconhecerem-se - ficam cegos.



Jesus Jiménez Domínguez



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