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quinta-feira, julho 23, 2015

é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores





Vasco Gato



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quinta-feira, julho 02, 2015

capuchinho vermelho


diz uma história muito antiga que a juventude
é um tempo de macieiras e trincada a maçã
na história ao lado despertei desse primeiro sono
onde os atalhos não se sonham de tão mal
iluminados. todos os perigos que se espreitam
estão próximos todos os passos seguros
são lugares mortos e eu segui as sombras vivas
eu quis o caminho que me devorou rendido
na sua acesa fome abraçando o bosque sabendo
que a maior cegueira é a da maior claridade.



Pedro Jordão
in "Persona"
Do Lado Esquerdo




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segunda-feira, junho 08, 2015

Levam-me, imagino que para uma festa, afinal pertenço ao numero dos obesos, um grupo caracterizado pela boa disposição, a admirável alegria dos gordos

Bem-vinda ao Gordinha Feliz, para maiores de cem quilos


Levam-me, imagino que para uma festa,os estudiosos dizem que os gordos compensam a fraca auto estima com uma alegria falsa



Dulce Maria Cardoso



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quinta-feira, maio 28, 2015

tradução caseira da lebre



Harux e Harix decidiram nunca mais se levantar da cama. Amam-se loucamente e não podem afastar-se um do outro mais do que sessenta ou setenta centímetros. Logo o melhor é ficar na cama, longe dos apelos do mundo. No entanto, o telefone está na mesa-de-cabeceira, e às vezes toca e interrompe os seus abraços: são os familiares que querem saber se tudo está bem. Mas essas chamadas são cada vez mais raras e lacónicas. Os amantes apenas se levantam para ir à casa de banho, e nem sempre, a cama está desarrumada, os lençóis gastos, mas eles não dão conta, cada um mais imerso na onda azul dos olhos do outro. Os seus membros misticamente entrelaçados.
Na primeira semana alimentaram-se de bolachinhas, de que se tinham abastecido abundantemente. Como as bolachas acabaram, agora comem-se um ao outro.
Anestesiados pelo desejo, arrancam grandes pedaços de carne com os dentes, entre dois beijos devoram o nariz ou o dedo mindinho, bebem o sangue um do outro; depois saciados fazem novamente amor como podem, e adormecem para recomeçar quando acordam. Perderam a conta dos dias e das horas. Não são bonitos de ver, isso é verdade, ensanguentados, esquartejados, pegajosos. Mas o seu amor está para além de todas as convenções.




Juan Rodolfo Wilcock



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quarta-feira, maio 13, 2015

Fica

Fica longe das pessoas de bom senso
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.



Judith Herzberg




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quarta-feira, maio 06, 2015

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos por dia,
pois levanto-me tarde e primeiro há que lavar
os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.
Chegar por fim a casa para a prosa
de uma carne à jardineira, o estrondo
das notícias, a louça por quebrar. Concluindo,
só por volta das duas da manhã começo a despir
o fato de macaco, a deixar as imagens correr,
simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.



José Miguel Silva



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quinta-feira, abril 16, 2015

Quando o John e a Ginny partiram, ele desse: “Havemos de vir ver-te.”
Passado um bocado adormeci. A chuva tamborilava no telhado. Senti que durante algum tempo teria de ser absolutamente passiva, flutuar de momento a momento e de hora a hora, deixando de fora sentimentos e pensamentos. Eram ambos demasiado perigosos. E eu temia o choro. Ultimamente, desde o hospital, tenho chorado muito, o que pode ser uma razão para o John achar que eu tinha de partir. As lágrimas são uma ofensa e fazem com que os outros, mais do que sofrer, se sintam atacados e irritados. Quando o mundo interior transborda desta maneira, há qualquer coisa de muito pessoal que se mostra onde não deve, ou onde não deve mostrar-se pelo menos quando se tem a minha idade. Só as crianças têm direito às lágrimas, portanto, de certa maneira, o facto de me terem mandado para aqui é um castigo. Caramba, agora não posso pensar assim. É perigoso tudo o que não é passivo. Aprendo a aceitar.



May Sarton


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