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terça-feira, novembro 18, 2014

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.



Maria do Rosário Pedreira


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domingo, novembro 16, 2014

As coisas semelhantes


Um dia tiveste a minha idade e tantas ou mais coisas
partidas do que eu. Um coração, o fecho de um colar de pérolas,
aqueles olhos vazios como o aquário verde no topo da estante,
demasiadas palavras armadas em metáforas. Coisas semelhantes
que mais tarde alguém tentou reparar. Tempo, amor e morte – sobretudo
os seus lugares vazios.
E uma pele capaz de os alojar.



Inês Fonseca Santos


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segunda-feira, novembro 03, 2014

Há dias em que desejaríamos amar quem quer que fosse desde que igual ou só parecido com tantos outros e, desde logo, com nós próprios, alguém que nunca compreenderemos. Dias de puro terror em que não apenas não acontece nada como

Dias há em que os próprios dias acontecem. Ou nem isso. Tempo não chegando a ser dia, morto ainda antes de nascer

Puro terror. Dias em que desejaríamos qualquer mão e qualquer uma nos assusta como se nos arrastasse para o nada, onde, paradoxalmente, sabemos que poderíamos encontrar descanso. Uma teimosia irracional impede-nos de

Porque não sabemos mais se avançar, se recusar, se baixar os braços, ou só um e qual, se levantá-los, um só?, mas qual. Permanecemos sentados à espera duma resolução que não chega, mas quando chega, e sabemos que basta esperar, é tão irrisória como qualquer outra, beber um copo de água, comer um pão com geleia, admirar o doce da geleia na língua e saborear a sua cor tão parecida como a do sangue.




Bénédicte Houart




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sábado, novembro 01, 2014

mais uma vez desce as escadas
para falar de ausências

tem medo e em dias curtos decide
envelhecer no interior da casa

ao sono conhece-o como fuga ao silêncio

um dia escreveu (era domingo) sobre os vestígios
da respiração nos pequenos nadas

anos depois refugia-se no outono como
quem vê a vida toda nas folhas



maria sousa



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quarta-feira, outubro 22, 2014

Coisas que me fazem bater depressa o coração*


 O Outono, o cheiro da terra molhada, o som das ondas, o estalar das folhas secas, a minha família, os meus amigos, as janelas, a luz a atravessar cortinas brancas, nuvens, as canções do Tom Waits, livrarias antigas, livros e caderninhos, olhar, rir, o som da chuva, os poemas da Alejandra Pizarnik, os da Anne Sexton, viajar, despedidas, ouvir poemas meus em lituano, falar em público, cafés vazios, cigarros. E melancolia.

 *(plágio descarado ao titulo de um um texto da Sei Shonagon)




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quarta-feira, outubro 15, 2014

o Alice faz 12 anos


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 " Não posso acreditar", disse Alice. " Ai não?", perguntou a Rainha Branca em tom condoído. " Tenta outra vez; inspira fundo e fecha os olhos." Alice riu, " Não vale a pena tentar", disse: "Uma pessoa não pode acreditar em coisas impossíveis. " Atrevo-me a dizer que não tens muita prática ", disse a Rainha. " Quando tinha a tua idade, fazia sempre isso meia hora por dia. Ora, cheguei a acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço."


 Lewis Carroll

domingo, outubro 12, 2014

DOMINGO

Acordámos com o céu encostado
no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a partir do alto das montanhas.
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois miúdos que não têm para onde ir.
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes nem alegres, metidos no roupão
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os dentes com a ponta da navalha.




Vítor Nogueira




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