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terça-feira, fevereiro 10, 2015


DESALENTO

Tristeza destas minhas mãos
demasiado pesadas
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –

tristeza desta minha boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
e esta é a expressão
da mais desesperada
distância.

- Antonia Pozzi



 photo nicholasnixon.jpg




terça-feira, janeiro 20, 2015

Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora
são as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.


Helder Moura Pereira



 photo noradiggerdinsmoor.jpg
a casa é uma memória onde
devagar desenho percursos
(mapas para inventar o tempo)

para a habitar reparto as sombras

e enquanto as estações se confundem
acordo para uma insónia agitada
onde uma casa existe
mas não tem paredes




Maria Sousa

   photo MadzRehorek.jpg

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quinta-feira, janeiro 08, 2015

A propósito de grandes épocas, vem-me à lembrança uma frase, que aliás o senhor conhece:

a história dá lições, mas não tem alunos.

Ingeborg Bachmann

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sábado, janeiro 03, 2015

tradução mesmo muito caseira

O que quero dizer é isto
não há um começo para um fim
mas há um começo e um fim para o começo.
Mas sim claro.
Qualquer um pode aprender que o norte claro
não é apenas o norte mas sim o norte como norte.
Porque é que eles estavam preocupados.
O que eu quero dizer é isto.
Sim claro.



Gertrude Stein



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terça-feira, novembro 18, 2014

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.



Maria do Rosário Pedreira


 photo aubreyrose1-1.jpg


domingo, novembro 16, 2014

As coisas semelhantes


Um dia tiveste a minha idade e tantas ou mais coisas
partidas do que eu. Um coração, o fecho de um colar de pérolas,
aqueles olhos vazios como o aquário verde no topo da estante,
demasiadas palavras armadas em metáforas. Coisas semelhantes
que mais tarde alguém tentou reparar. Tempo, amor e morte – sobretudo
os seus lugares vazios.
E uma pele capaz de os alojar.



Inês Fonseca Santos


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