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quarta-feira, maio 10, 2017

a porta é só uma porta
mas quarto a quarto vou fechando
o mundo

é a minha história que conto

boa noite, boa noite
 
amanhã conto-te o resto
se for capaz de me lembrar



maria sousa




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sexta-feira, abril 21, 2017

A solidão é uma doença de pele


De noite assobiam os imãs da destruição.
O mesmo vento que hoje nos arranca pela raiz
cose-nos com fio duplo ao vento de amanhã.
Somos manchas minúsculas sob o os riscos da noite,
A cidade por onde caminhamos é um sapato demasiado apertado.
Um ar sem céu denuncia-nos, veste-nos para a desaparição.
Perdidos para sempre os planos do homem
um a um vão-se fechando todos os poros.
Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.



Jesús Jiménez Domínguez



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quinta-feira, março 16, 2017


...o amor e a qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante.

É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isto lhe cause somente dor.



Carson McCullers




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quinta-feira, março 02, 2017

Todos os museus têm medo de mim:
Sempre que fico o dia inteiro
Diante de um quadro
No dia seguinte anunciam
O desaparecimento desse quadro.
 
Todas as noites me apanham a roubar
Noutras partes do mundo,
Mas eu nem ligo
Às balas que me assobiam ao ouvido,
E aos cães-polícia que já conhecem
O cheiro das minhas pegadas
Melhor do que os namorados
O perfume da amada.
 
Falo em voz alta com as telas
Que põem em perigo a minha vida,
Penduro-as nas nuvens e nas árvores
E recuo para obter perspectiva.
 
Com os mestres “italianos” podes facilmente conversar.
Que ruído de cores!
É por isso que sou logo apanhado com eles,
Visto e ouvido de longe,
Como se tivesse papagaios nos braços.
 
O mais difícil é roubar Rembrandt:
Estendes a mão e encontras a escuridão —
Ficas apavorado, os seus homens não têm corpo,
Apenas olhos fechados em adegas escuras.
 
As telas de Van Gogh são loucas,
Rolam e dão cambalhotas,
Tens de prendê-las bem
Com ambas as mãos,
Pois são sugadas por uma força lunar.
 
Não sei porque é que Breugel me faz chorar,
Não era mais velho do que eu,
Mas chamaram-lhe velho,
Porque sabia tudo quando morreu.
 
Procuro aprender com ele,
Mas não posso conter as lágrimas
Que escorrem nas molduras douradas
Quando fujo com as estações debaixo do braço.
 
Como vos disse, todas as noites
Roubo um quadro
Com uma perícia invejável.
Sendo o caminho muito longo,
Sou finalmente apanhado,
Chego a casa a altas horas,
Cansado e rasgado pelos cães
Trazendo comigo uma reprodução barata.
 
 
 
 
marin sorescu



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quinta-feira, fevereiro 02, 2017

RETRATO


Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem



Rui Caeiro



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domingo, janeiro 22, 2017

 Guia de aves:
Ainda há
lugar para pássaros.

No interior das casas, eles pousam explicativos
do nada feito de suas asas.

Largam por isso penugem e pigmento
sobre madeiras baratas, e extenuam
a íntima velocidade
que lhes sobe ao bico como um silêncio.



Elisabete Marques




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terça-feira, janeiro 10, 2017

considerações

1
Só poetas muito pobres
falarão da riqueza destas casas.

As casas que limpo habitam o nadir
da hierarquia poética das casas
Mas com elas se paga o preço da arte.
Imprestável e luxuosa, dizem
Vital, penso, enquanto limpo casas.

2
São-me muito próximas, estas casas vazias
Não há comunhão com uma casa até assoar cotão
Sentindo a casa sair de mim

Quando me mudei para a minha casa
Também a limpei dos pés ao teto
E por isso me foi habitando nariz e poros.

No fim do dia enquanto a casa escorria
 pelo branco da banheira, pensei:
o habitante é o meio pelo qual uma casa regressa a si.

3
Se passares um dia a limpar uma casa
Ficarás muito limpo por dentro e
Muito sujo por fora.

4
Teorema:
Quanto mais suja está uma casa, mais limpa está a sua esfregona

5
Não é vergonha que o poeta tenha que limpar casas.
Vergonha seria não escrever sobre elas.

6
Há casas tão sujas que pedem black metal por banda sonora

7
Estas casas nunca se ocupam por muito tempo.
São prostitutas, não são casas para casar.
Entre um e outro ocupante
tenho que apagar as marcas dos corpos

Descobri uma esponja mágica
Que limpa dedadas da parede.
Custa o preço de duas cervejas
A terceira bebo-a ao fim do dia

8
Limpar-me com cerveja.

9
Por vezes os lençóis são abandonados
ainda deitados nas camas.
São um arrepio estes lençóis.
Sair para comprar tabaco e não voltar.

10
Uma casa não pode ser só bela
Tem que ter qualquer coisa de triste,
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Teria escrito Vinicius de Moraes
Se fosse um poeta tão pobre quanto eu.

11
Trapos são os velhos.
As minhas t -shirts mais amadas terminam a vida
a esfregar paredes.

12
Abandonam-se nas casas coisas sem préstimo
Móveis que não valem o seu peso às costas,
Canetas de apelo politico que nunca escreveram senão listas de compras
(o poeta usará estas canetas para escrever sobre casas)

13
Por vezes, nestas casas, também encontro fotografia.
Evidência:
Algumas fotografias pesam tanto nas costas como móveis.

14
Com uma casa,
pago a água ou a luz
da minha casa.

15
Nalgumas casas cortaram água e luz.
há que trocar horas de sol por horas na casa
há que levar a água nas mãos
(neste caso o poeta é também aguadeiro,
Direi rio, escada acima, rio Nilo)

16
Por não ter medo de mexer nas zonas que outros evitam
O poeta é campeão a lavar sanitas.

17   
Limpar casas é o preço de coisas muito caras,
como a arte.








Ana Tecedeiro



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