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quarta-feira, junho 27, 2007

Amei-te como na vida se ama uma só vez;
e todos os afectos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
imensa chama. Troquei suspiros e beijos

com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas

em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro -
que só nos teus lábios era graça e canção

e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão
naqueles que o cingiram que me faria velha
a tentar recordar-lhes os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal que
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada

me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há-de guardar-te para sempre de voltares.


Maria do Rosário Pedreira


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3 Comments:

Blogger Putty Cat said...

Poema com toque de perfeição.

27/6/07 11:12  
Blogger antónio davage said...

nada me guarda para sempre de voltar.

27/6/07 11:48  
Blogger marta said...

tão cheio de clareza e lucidez. deixa-me sem forças ...

27/6/07 17:31  

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