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quarta-feira, março 08, 2006

Sótão



Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.


Fiama Hasse Pais Brandão


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4 Comments:

Blogger hfm said...

Belíssimo!

8/3/06 11:20  
Anonymous ana said...

Distraí-me um bocado e zás. Ena, que lindo penteado novo :D:D:D
Muito catita, lebre.

8/3/06 13:46  
Anonymous António said...

Em casa da minha avó paterna
chamava-se terceiro à espécie
de arrecadação de dois andares
que ficava ao fundo de um corredor.
Era para onde fugíamos sempre
que encontrávamos a porta
aberta - a aventura valia bem
a reprimenda. O terceiro

era arriscado e umbroso, as telhas
coavam o ar da tarde onde dançava
uma poeira lenta e muito antiga.
Grandes aranhas verdes e nervosas
pareciam vigiar o que restara
da infância do meu pai
e seus irmãos: cromos das Raças

Humanas, revistas com desenhos
humorísticos onde homens e mulheres
usavam sempre chapéu. um mundo
desaparecido, morto havia décadas -
como se a casa, na sua difícil progressão
para o furuto, se tivesse esquecido
do terceiro no passado. Bem vistas
as coisas, porém, a verdade era outra:

o terceiro adiantara-se, tinha chegado
mais cedo ao destino que aguardava
tudo o resto. A avó, a casa inteira -
e a parte de mim que lhes pertencia.
Esta relação de ausências é contrária
ao emprego das palavras. E é por isso
que eu não sei acabar este poema.

(O terceiro, Rui Pires Cabral)

8/3/06 23:21  
Blogger lebredoarrozal said...

que poema fantástico.

8/3/06 23:33  

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