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terça-feira, dezembro 07, 2004

Estou apaixonada por este texto

Água

Ele acordou.
Ficou imediatamente consciente. E cinco segundos depois achou-
se estremunhado. O seu corpo era o ponto de uma centelha na
intercepção dos mundos. Nem conformados nem em rio. Apenas
plasma vasto.

Ouviu pingar. Plin, plin, plin, plin, plin plin, plin...

O inverno mexia as folhas com as meninas incolores. Lá fora a
meruja fazia cair a virgindade das meninas.

- Quem era eu, ontem?

Voltou a escorregar no sono.
A fermentar um sonho que se redesenhava de noite para noite.
Alguém corria com uma leveza não propriamente física, e, no
entanto, o movimento era extremamente sensual. Atravessou
escadas e muros com saltos fáceis, e muito bem conseguidos, e
só frenou um pouco antes de ela se virar.

Quando ela se voltou, colaram-se num abraço. No abraço dos
corpos veio uma canção das forças.

Mas no apertar do corpo dela, o corpo dele começava a fundir-se
no dela, de tanto a apertar, acabando por entrar nela; no fim
estava dentro dela a apertar-se a si mesmo, pois o corpo dela
já desaparecera como algo consistente e apartado.

- Quem era eu quando te conheci?

Voltou a despertar-se. Plin, plin, plin, plin, plin, plin,
plin...

Voltou-se na cama e ajustou o edredão. O outro dormia
profundamente. Pousou-lhe um beijo.

- Quem és tu que não sou eu?

E o tempo continua a pingar. Plin, plin, plin, plin, plin...

Pedro Outono



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