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sexta-feira, maio 27, 2016

Sexta-feira

Tranquila Sexta-feira
abandonada Sexta-feira
Sexta-feira cada vez mais triste como ruelas antigas
Sexta-feira de indolentes pensamentos indispostos
Sexta-feira de sinuosos e nefastos espreguiçamentos
Sexta-feira de nenhuma expectativa
Sexta-feira de rendição.

Casa vazia
casa solitária
casa trancada contra a investida da juventude
casa da escuridão e ânsias de sol
casa de solidão, augúrio e indecisão
casa de cortinas, livros, guarda-louça, fotografias.

Ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena
como uma corrente profunda
através do coração dessas silenciosas, abandonadas Sextas-feiras
através do coração dessas tristes casas vazias
ah, como a minha vida fluiu silenciosa e serena.



Forugh Farrokhzad





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quinta-feira, outubro 15, 2015

terça-feira, janeiro 20, 2015

a casa é uma memória onde
devagar desenho percursos
(mapas para inventar o tempo)

para a habitar reparto as sombras

e enquanto as estações se confundem
acordo para uma insónia agitada
onde uma casa existe
mas não tem paredes




Maria Sousa

   photo MadzRehorek.jpg

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sábado, janeiro 03, 2015

tradução mesmo muito caseira

O que quero dizer é isto
não há um começo para um fim
mas há um começo e um fim para o começo.
Mas sim claro.
Qualquer um pode aprender que o norte claro
não é apenas o norte mas sim o norte como norte.
Porque é que eles estavam preocupados.
O que eu quero dizer é isto.
Sim claro.



Gertrude Stein



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sábado, novembro 01, 2014

mais uma vez desce as escadas
para falar de ausências

tem medo e em dias curtos decide
envelhecer no interior da casa

ao sono conhece-o como fuga ao silêncio

um dia escreveu (era domingo) sobre os vestígios
da respiração nos pequenos nadas

anos depois refugia-se no outono como
quem vê a vida toda nas folhas



maria sousa



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quarta-feira, outubro 01, 2014

tradução "muito" caseira da lebre


Mais do que isto, sim
Mais do que isto, podemos ficar caladas.
Com um olhar parado
como aquele dos mortos.
Podemos fixar durante longas horas
o fumo a sair de um cigarro
a forma de uma chávena
a flor esbatida no tapete
o slogan a desaparecer na parede.
Podemos afastar as cortinas
com dedos enrugados e ver
a chuva cair fortemente no beco
uma criança parada na porta
com um colorido papagaio de papel
uma carripana a sair da praça vazia
numa pressa barulhenta.
Podemos estar ali paradas
Ao pé das cortina – cegas, surdas
Podemos gritar com uma voz bastante falsa, bastante remota
“eu amo…”

Nos braços dominadores de um homem
podemos ser uma saudável e bonita mulher.
Com um corpo como uma toalha de mesa de cabedal
com dois grandes e duros peitos,
na cama com um bêbedo, um louco, um vadio
podemos manchar a inocência do amor.

Podemos degradar com astúcia
todos os mistérios profundos
podemos continuar a resolver palavras cruzadas
a descobrir alegremente as respostas sem sentido
respostas sem sentido, sim – de cinco ou seis letras.

Com cabeça inclinada, podemos ajoelhar-nos uma vida inteira perante a grade dourada de um túmulo
podemos encontrar deus numa sepultura sem nome
podemos trocar a nossa fé por uma moeda sem valor
podemos apodrecer no canto duma mesquita
como um velho recitador de orações de peregrinos.
Podemos ser constante como o zero
Nas somas, subtracções, ou multiplicações.
Podemos pensar nos teus - mesmo nos teus – olhos
Como buracos sem brilho nuns sapatos velhos.
Podemos secar-nos numa bacia, como água.

Com vergonha podemos esconder a beleza de um momento juntos
no fundo de um baú
como uma velha e estranha foto,
na moldura vazia de um dia podemos mostrar
a imagem duma execução, duma crucificação, ou de um martírio,
podemos tapar as rachas na parede com uma máscara
podemos lidar com imagens mais ocas do que essas.

Podemos ser como bonecas de corda
e olhar para o mundo como olhos de vidro
e jazer durante anos entre rendas e lantejoulas
o corpo recheado de palha
dentro de uma caixa de feltro,
e a cada toque de luxúria
gritar sem nenhuma razão
“Ah, que feliz sou!”




Forugh Farrokhzad




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terça-feira, outubro 15, 2013

o Alice faz 11 anos.


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era uma vez um blog




 " Não posso acreditar", disse Alice. " Ai não?", perguntou a Rainha Branca em tom condoído. " Tenta outra vez; inspira fundo e fecha os olhos." Alice riu, " Não vale a pena tentar", disse: "Uma pessoa não pode acreditar em coisas impossíveis. " Atrevo-me a dizer que não tens muita prática ", disse a Rainha. " Quando tinha a tua idade, fazia sempre isso meia hora por dia. Ora, cheguei a acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço."


 Lewis Carroll

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segunda-feira, junho 24, 2013

traduçao caseira da lebre

História de amor

A pena para a deserção
É morte por um pelotão de execução

Poupo-te esse trabalho

junto envio uma pistola.
Carregada com apenas uma bala.
Aperta o gatilho uma vez.
Talvez nada aconteça.

Mas aperta uma segunda vez…
uma terceira…
Vês

Eu sei os jogos que tu gostas


Jim Carroll



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sexta-feira, março 15, 2013

À infância só se chega partindo de muito longe. A infância é aí, onde partes, não onde chegas. Olha para trás. Que vês? Nada. A memória é a única coisa que verdadeiramente te pertence, mas lembras-te de um estranho. Como poderias, há muitos anos, saber que eras apenas a lembrança de um estranho:

tu?

Lembras-te do carrinho de pau? Lembras-te do poço? O que havia debaixo da cama? O que estava escondido atrás dos cortinados?

Palavras é tudo o que tens. O carrinho de pau: palavras. O cão: palavras. O medo: palavras. Alguma vez tiveste outra coisa?



Manuel António Pina



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terça-feira, dezembro 11, 2012

tradução caseira da lebre

Chuva de primavera, depois uma noite no verão.
Uma voz de homem, depois uma voz de mulher.

Cresceste, foste atingida por um relâmpago.
Quando abriste os olhos, estavas presa para sempre ao teu verdadeiro amor.

Só aconteceu uma vez. Depois cuidaram de ti,
a tua história terminou.

Aconteceu uma vez. Ser atingida foi como ser vacinada;
ficaste imune para o resto da vida,
quente e seca.

A menos que o golpe não tenha sido profundo o suficiente.
Assim não ficaste vacinada, ficaste viciada.


Louise Gluck



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quinta-feira, novembro 15, 2012

Não lhe parece estranho que certas memórias de infância estejam assim coalhadas em luz, encapsuladas como aquelas esferas de vidro que ao virar-se cintilam de neve ou de partículas doiradas sobre uma paisagem em miniatura? Podia ser o Escorial, a Torre de Londres, os Montes Apalaches. Um par que dança de pernas para o ar na concha da mão cheia de vidro grosso, dentro do qual paira depois, em descida mansa, uma poalha de estrelas cadentes. Pode ser o Taj Mahal, feito para alumbrar porque navega nos ares à hora da bruma arfante do calor. Isso eu vi. Ou talvez estivesse marejada de choro. Jazigo raro, onde quem sabe só restam que résteas de ossos.
Está-se lá dentro, nas esferas vivas, sem saber para onde se ia, nem de onde se vinha. Para sempre, o que não é exagero nenhum, enquanto a memória veja. Mas suponho que são estas bagas translúcidas que atravessam de sorrisos o cochilar dos velhos e dos meninos que hão-de voltar a ser. Se voltarem. Ele há tanto sítio e lugar e ser de que se está tão certo e seguro em sonhos, que é bem possível que para lá se vá ou de lá se venha. A alma é imortal mas não nos é dado saber aonde se demora.



Maria Velho da Costa



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sábado, novembro 10, 2012


tradução caseira da lebre


O que é a realidade?
Sou uma boneca de gesso, eu poso
com olhos que abrem sem horizonte ou anoitecer
para pessoas envernizadas a sorrir,
olhos que abrem e fecham, azuis aço.
Sou uma espécie de transplante de I . Magnin?
Tenho cabelo,  anjo preto,
recheio de anjo-preto para pentear,
pernas de nylon, braços luminosos
e algumas roupas dos anúncios.

Vivo numa casa de bonecas
com quatro cadeiras,
uma mesa de imitação, um telhado plano
e uma grande porta de entrada.
Muitos chegaram a esta encruzilhada tão pequena.
Há uma cama de ferro,
(a vida alarga, a vida faz pontaria)
um chão de cartão,
janelas que se escancaram para a cidade de alguém,
e pouco mais.

Alguém brinca comigo,
planta-me numa cozinha toda eléctrica
Foi isto que a Sra. Rombauer disse?
Alguém finge comigo -
estou emparedada em sólido pelo seu barulho -
uu põem-me em cima da sua cama arrumada.
Eles acham que eu sou eu!
O calor deles? O calor deles não é um amigo!
Eles forçam a minha boca para os seus copos de gin
e para o seu pão rançoso.

O que é a realidade
para esta boneca sintética
que devia sorrir, que devia meter as mudanças
que devia escancarar as portas numa desordem sadia
sem evidencias de ruínas ou medos?
Mas eu choraria
enraizada na parede que
em tempos já foi minha mãe
se me lembrasse como
e se eu tivesse lágrimas.



Anne Sexton



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domingo, outubro 14, 2012

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».



Carlos de Oliveira



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quarta-feira, outubro 10, 2012

tradução “caseira” da lebre



Sou o único actor.
É difícil para uma mulher
interpretar uma peça inteira.
A peça é a minha vida,
o meu acto único.
O meu correr atrás das mãos
e nunca as apanhar
(as mãos não se vêem -
ou seja, estão nos bastidores)
Tudo o que faço em cena é correr,
correr para acompanhar
mas sem o conseguir.

De repente paro de correr.
(isto avança um bocado com o enredo)
Faço discursos, centenas,
todos orações, todos solilóquios.
Digo coisas absurdas como:
ovos não podem discutir com pedras,
ou, mantenham os vossos braços partidos dentro das mangas,
ou, estou aqui de pé mas a minha sombra está torta.
E tal e tal.
Muitos buhs. Muitos buhs.

Apesar disso eu continuo para as ultimas deixas:
Estar sem Deus é ser uma cobra
que quer engolir um elefante.
A cortina cai.
A assistência apressa-se a sair
foi uma má interpretação.
Porque sou o único actor
e há poucos humanos cujas vidas
farão uma peça interessante,
não concordam?


Anne Sexton



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segunda-feira, outubro 08, 2012

tradução caseira da lebre


Algumas pessoas vendem o seu sangue. Tu vendes o teu coração.
Era isso ou a alma.
A parte difícil é tirar a maldita coisa para fora.
Uma espécie de torção. Como abrir uma ostra,
a tua espinha, um pulso,
e depois, upa! Está na tua boca.
Viras-te parcialmente do avesso
como uma anémona do mar a cuspir um seixo.
Há um “plop”quebrado, o som
de vísceras de peixe a cair num balde.
E ali está, um enorme coágulo vermelho escuro
do passado ainda-vivo, a cintilar inteiro no prato.
Vai passando de mão em mão. É escorregadio.É deixado cair.
Mas também degustado. Muito grosseiro, diz um. Muito salgado.
Muito amargo, diz outro, fazendo uma cara.
Cada um é um gourmet instantâneo,
e tu ficas a ouvir isto tudo
a um canto, como um empregado de mesa recém-contratado,
a tua mão tímida e habilidosa na ferida escondida
no fundo da camisa e peito,
timidamente, sem coração.




Margaret Atwood




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