#b-navbar { display: none; }

terça-feira, novembro 30, 2010

A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.


Maria Sousa


Photobucket - Video and Image Hosting

Etiquetas:

quarta-feira, janeiro 06, 2010

momento narcisista da lebre


Actual, 24 de Dezembro de 2009 (Expresso)

4 estrelas

CRIATURA Nº4
Núcleo Autónomo Calíope, 2009, 168 págs., €7

Esta revista volta a confrontar-nos com um original elenco poético.

Graficamente, o negrume esbateu-se, embora a “Criatura” continue a manifestar o desejo de ser um “grito sem voz”, algures “entre a loucura e a beleza”. Mas o que sobressai, neste quarto número da revista, é a reunião feliz de poetas pertencentes a timbres e gerações muito diferentes. Há autores que aqui nos surgem inesperadamente ‘reabilitados’, com poemas bastante superiores aos que anteriormente tinham publicado em livro – casos de Luís Pedroso ou Ana Salomé. Mais sóbria, a escrita de Maria Sousa é outra agradável presença. São menos aliciantes Nuno Brito, autor até agora de um inquieto mas desigual livro de poemas, e José Carlos Barros, de quem era legítimo esperar melhor. Luís Filipe Parrado, quando não resvala para um lirismo inóquo, revela-se de uma grande e singular mestria. Outros nomes a reter são, certamente, os do quase sempre invisível Miguel Martins (que colabora com dois magníficos e ‘desalinhados’ poemas), de Rui Caeiro e de Rui Miguel Ribeiro. É de salientar, ainda, a cada vez mais nítida veemência dos discursos de David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Dir-se-ia, em ambos os casos, que passou a haver uma voz própria, capaz, respectivamente, de vencer o risco do poema curto e do poema longo. Veja-se do primeiro, ‘Reciclagem para C.’: “O deus do Eugénio/ é muito mais verde/ quando lido pelos teus olhos.” E, do segundo, o excelente ‘A Carne Agarrada aos Ossos’ e a aguda consciência desse “desgosto geracional” que “lixou já/ poemas mais que suficientes”. Este ‘desgosto’ prolonga-se, de algum modo, na escolha de poetas traduzidos: Déborah Vukusic (passível de nos lembrar Adília Lopes), Jesús Jiménez Domínguez e os exercícios por vezes fúteis da sobrevalorizada Elena Medel. Dito isto, parece-me evidente estarmos perante um núcleo editorial/poético que reivindica “uma arte que se deixe/ de arrotos místicos”. E, pelo menos nesse aspecto, a batalha está mais do que ganha.

Manuel de Freitas


Photobucket

Etiquetas:

quarta-feira, outubro 22, 2008

o modo súbito de ficar parada
quando às vezes há soluços no avesso da voz
aperto as mãos para dar cor à pele

sem te saber perguntar pela ausência
se estivesses aqui,
como quem fala do tempo,
não te iria dizer que
por cima da voz há relâmpagos



maria sousa



Photobucket

quarta-feira, dezembro 13, 2006

A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.


Maria Sousa


Photobucket - Video and Image Hosting

sexta-feira, junho 14, 2013

podemos cantar um canção os dois
a valsa da matilde do waits
a voz do vinagre onde o álcool se transforma em
som

algures no nosso oeste
cactos e bagaço
o blue valentine na kentucky avenue

uma lágrima numa longa
noite sem fim
porque esperamos?
não sei
juro que não sei
sentada na berma
ja tenho doses de noites a
mais
de esquinas e portas
de adeus em adeus
elas não suportam a separação
não choram mais porque secaram
i never talk to strangers

o som da cidade
fica restabelecido e já não tenho horas
o relógio parou
e eu fiz um gesto obsceno
e desapareci



maria sousa



 photo aubreyrose3-1.jpg

quinta-feira, outubro 20, 2011

por ahora las palabras son
marcas que los dedos dejan en la piel

cuando ya no hay restos de la voz en el habla
en el momento en que con lentitud
escribo el silencio en el cuerpo

como movimiento imperfecto de la respiración
acepto lágrimas




maria sousa






dois poemas meus traduzidos para espanhol obrigada, Ana

Etiquetas:

terça-feira, junho 28, 2011

neste quarto descreve-se o frio com gestos
todas as noites alimento o vazio
com tília que se enraiza na voz

aqui já não há espaço para ti
tu és tudo o que se esconde no cansaço dos insectos



maria sousa



Photobucket

quarta-feira, dezembro 15, 2010

para os lugares que me faltam no interior do sono
tenho metáforas

ao falar do sabor que o vento deixa nos lábios
quando a voz tropeça nas sílabas

eu serei sempre a que abre as palavras na garganta




maria sousa




Photobucket

segunda-feira, dezembro 06, 2010

por agora as palavras são
marcas que os dedos deixam na pele

quando já não há restos de voz na fala
no momento em que devagar escrevo
silêncio no corpo

como movimento imperfeito da respiração
aceito lágrimas




maria sousa




Photobucket

Etiquetas:

segunda-feira, janeiro 25, 2010

por agora as palavras são
marcas que os dedos deixam na pele

quando já não há restos de voz na fala
no momento em que devagar escrevo
silêncio no corpo

como movimento imperfeito da respiração
aceito lágrimas




maria sousa




Photobucket

sexta-feira, janeiro 15, 2010

como um espaço desabitado
o corpo faz-se no inventário de silêncios

se eu conto árvores e o frio
para me ocuparem a voz
há muito tempo que as palavras
são a incómoda sensação de vazio




maria sousa




Photobucket

terça-feira, abril 14, 2009

para os lugares que me faltam no interior do sono
tenho metáforas

ao falar do sabor que o vento deixa nos lábios
quando a voz tropeça nas sílabas

eu serei sempre a que abre as palavras na garganta




maria sousa




Photobucket

quinta-feira, outubro 09, 2008

O processo de contar histórias é sempre lento
começa-se pelo inicio
e há quem diga que chegar ao fim é simples

uma frase é a melhor medida
para juntar os fragmentos

e se a noite a subir pela voz
é um método de fazer silêncios
e o coração é um órgão que
espreita pelos buracos da gramática

no fundo é porque têm um corpo como fronteira



maria sousa



Photobucket

domingo, março 02, 2008

com a garganta cheia de sombras
(sítios que antes sublinhavam a tua ausência)

quero dizer-te que a voz é um juntar de perdas
quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio

fica um arrepio de insónia a escrever vazios



Maria Sousa



Photobucket

terça-feira, maio 15, 2007

tenho-te na pele como voz
que ainda não tive tempo de despir

faço uma pausa, escolho um vestido novo
mas mesmo assim fico um adereço imperfeito
no teu esquecimento


Maria Sousa


Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

quinta-feira, março 22, 2007

tudo o que não é voz são lençóis
onde me estendo como cicatriz

como quem arruma a noite numa cama estreita
os gestos pairam na sombra que
vai dos lábios ao primeiro silêncio

depois do vermelho atravessar as feridas
todas as cores são cortinas


Maria Sousa


Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Em dias de sílabas que
talvez consigam dar sentido ao ontem
(é aí que te arrumo)

há sempre os primeiros sons quando do outro lado
da voz as palavras estão vagas

com o frio a roçar a garganta
tudo está destinado à fala

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração


Maria Sousa



Photobucket - Video and Image Hosting

sábado, outubro 07, 2006

escrevo o que ainda conheço
nomes de ruas, pássaros, árvores
monólogos de quem ainda fala alto
é a minha voz ou a tua?
como se tudo fosse uma metáfora sem fim

lá fora a chuva confunde-se com gestos
falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada

ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me


Maria Sousa


Photobucket - Video and Image Hosting

quarta-feira, setembro 27, 2006

olha, cruzo os dedos como resto de um gesto
para marcar território sento-me no quarto
guardo as ilusões nos bolsos

recomeço onde outras bocas já colaram
legendas à cama vazia
(não te percas a revisitar o sono)
o musgo invade o quarto
sobram silêncios a espalhar vozes

na rua traseira há árvores e gestos lentos
em ecos feitos de pausas
metade de mim procura as palavras certas

para mover a voz uso espelhos
sem saber para que lado olhar
(parábola de movimento e respiração)


Maria Sousa


Photobucket - Video and Image Hosting