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Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012

Aceito-me como sou.

A escuridão fecha-se como um muro
e não há portas de entrada ou de saída.

Quem pensa em mim
agora?



Josep M. Rodriguez



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Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

da noite dizes que a respiração é hábito
uma ruga a imitar a sombra nasce da cor
que se define em ausências

apago o tempo na cama por fazer
soletro-te a riscar manhãs da noite
há que respirar com as janelas abertas de par em par
(cheiram ao verde escuro das arvores)



Maria Sousa



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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

Retrato de mulher

Tem de ser à escolha.
Tem que mudar para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale a pena tentar.
Olhos tem, se necessário, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos de água sem motivo.
Dorme com ele como qualquer uma, única no mundo.
Dá-lhe quatro filhos, nenhum, um.
Ingénua, mas a melhor a aconselhar.
Frágil, mas carregará o fardo.
Não tem a cabeça no lugar, mas há-de ter.
Lê Jaspers e revistas femininas, mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardal com a asa partida,
o seu próprio dinheiro para uma viagem longa e distante,
o cutelo da carne, a compressa e um cálice de vodka.
Para onde corre assim, não estará cansada?
De maneira nenhuma, um pouco, muito, não importa.
Ou o ama, ou teima em amá-lo.
Para o bem, para o mal e por amor de Deus.




Wislawa Szymborska



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Terça-feira, Fevereiro 21, 2012

entrudemos

Domingo, Fevereiro 19, 2012

DOMINGO

Acordámos com o céu encostado
no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a partir do alto das montanhas.
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois miúdos que não têm para onde ir.
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes nem alegres, metidos no roupão
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os dentes com a ponta da navalha.




Vítor Nogueira




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Sábado, Fevereiro 18, 2012

não saio antes
que tudo esteja pronto

a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off

nessa hora em que
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua

sento-me num banco de jardim
mais próximo
onde (que perfeição)
nada acontece




Miguel-Manso



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Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

no princípio era

não dormia sem o escuro absoluto,
doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto
nesse lugar onde vivia com outros como ela
que às vezes pensava: tão estranho nascer
(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)
para o dia passado com estranhos.
E por isso, no princípio, não dormia
sem procurar o amor, sem beijar na testa
a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.
Depois esvaziou-se com cuidado.




Filipa Leal



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Terça-feira, Fevereiro 14, 2012

das manhãs

apenas levarei a luz

despovoada

sem promessas
sem barcos
e sem casas

não levarei o orvalho das ameias
não levarei o pulso das ramadas

da tua vez

levarei os sítios das mimosas
apenas os sítios das mimosas
as pedras
as nuvens
o teu canto

levarei manhãs e madrugadas




Daniel Faria




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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Para não olhar, comecei a dar nomes às coisas.
Como não chegava, desarrumei-as.
Quando terminei o pó continuava por cima do piano.




amélia sarmento




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