Sexta-feira, Julho 29, 2011
Quinta-feira, Julho 28, 2011
Sexta-feira, Julho 22, 2011
«Às vezes não te compreendo bem.»
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim…
A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.»
«Mas eu sou aquela ilha.»
Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.
«Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.»
«Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?»
«Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?»
Maria Judite de Carvalho
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim…
A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.»
«Mas eu sou aquela ilha.»
Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.
«Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.»
«Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?»
«Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?»
Maria Judite de Carvalho
Quinta-feira, Julho 21, 2011
Terça-feira, Julho 19, 2011
O meu corpo, se bem que leve, é um peso que arrasto sem forças para tanto, um peso que me dói, além de me pesar e de me coagir a arrastá-lo. Desejaria não o sentir, como não sinto o ar que respiro, embora esteja envolvida nele e com ele. Queria deslocar o corpo sem esforço, tal como desloco fluidos, cheiros, poeira, quando caminho de qualquer lado para qualquer lado. Queria disponibilizar o corpo, guardá-lo bem fechado numa gaveta secreta e, quando precisasse, ia lá buscá-lo, trazia-o comigo e dizia-lhe: agora quero sentir-te, mostra-me lá como é , dá-me apetites e desejos que eu possa facilmente satisfazer, dá um prazer à alma que te habita(...). Eu desejaria enrolar-me no meu corpo, como se eu fosse seda e ele puro espírito.
Fernanda Botelho
Fernanda Botelho








